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Sabores de Berlim: a cozinha multicultural de Sabine Hueck

Nessa semana, fomos convidados a participar de uma aula de culinária e jantar com a chef brasileira/berlinense Sabine Hueck a convite do VisitBerlin.

Um time de jornalistas e blogueiros veio do Brasil para conhecer o lado mais legal da cidade, que não tem muito a ver com os pontos turísticos tradicionais. Eles também descobriram que a gastronomia berlinense tem mais do que o currywurst pra oferecer.

Nos últimos dois anos, a cultura da street e slow food estourou na cidade. Isso reflete na popularidade das feiras e eventos gastronômicos como o Street Food Thursday  do Markthalle 9 e o Food Night do Neue Heimat, que oferecem a oportunidade a chefs e pequenos restaurantes a apresentar suas criações para um grande público. E como comer pode ser mais do que uma necessidade, mas um grande prazer, os berlinenses aprovaram a ideia e transformaram essas visitas em uma opção de lazer. Quem está a passeio e sabe dessa novidade aproveita para conhecer sabores e criações elaboradas de todos os cantos do mundo num ambiente simples, aconchegante e descontraído. Um novo país e um sabor estão a uma banca de distância.

 

A riqueza da cozinha brasileira também faz parte desse melting pot. Quando combinada com características berlinenses, resulta num equilíbrio e mistura de sabores incríveis, como Sabine nos mostrou no seu recém inaugurado espaço gastronômico, onde é possível participar de um curso de culinária, aproveitar um jantar preparado por ela e sua equipe na cozinha, ou os dois, como ocorreu na última quarta.

A chefe Sabine Hueck
A chefe Sabine Hueck

Sabine tem origens austríacas, que também influenciam na sua cozinha, e uma extensa bagagem multicultural, com experiência em Nova York, Bangkok, Peru, Bolívia e Munique.  Há 28 anos em Berlim, a paulistana trabalhou como consultora e professora em escolas de culinária e inaugurou há pouco seu espaço em Schöneberg.

Sala de jantar de Sabine Hueck
Sala de jantar de Sabine Hueck

Depois das apresentações, foi hora de preparar o jantar, composto por entrada, dois pratos principais e sobremesa, acompanhados de vinhos e espumantes da região. Os principais produtos que Sabine utiliza são fornecidos por produtores das redondezas de Berlim, não apenas para incentivar o consumo sustentável, mas para garantir o frescor e a qualidade dos pratos.

Turma de jornalistas cozinhando com a chef Sabine Hueck
Turma de jornalistas cozinhando com a chef Sabine Hueck

O menu da noite foi composto pelos seguintes pratos:

Aperitivo: Almôndega de camarão e couve-rábano com molho de pimenta

Entrada: Sopa espumante de ervilha – Capim Cidreira

Primeiro prato: Truta sobre cama de legumes grelhados e manteiga de amêndoas

Pena que só tirei foto da truta com legumes. A manteiga de amêndoas deu um toque incrível ao prato.
Pena que só tirei foto da truta com legumes. A manteiga de amêndoas deu um toque incrível ao prato.

Segundo prato: Peito de pato com molho de maracujá com repolho roxo e purê de raízes

Sobremesa: Mousse de limão gelado

Diversas delícias doces além do mousse de limão gelado
Diversas delícias doces além do mousse de limão gelado

 

Além de poder saborear a  janta temos a oportunidade de repetir o menu em casa, pois Sabine preparou uma pastinha com todas as receitas. Quem quiser fazer um curso ou apreciar um jantar incrível, basta contatar a chef Sabine Hueck aqui.

Ficou com água na boca? Então venha para Berlim, faça conosco um roteiro gastronômico e garanta uma grande experiência gastronômica com sabores surpreendentes.

 

Mariana Polke: Das Unkraut – a imigração em um herbário

A Mariana Polke, 29 anos, é de Berlim. Desde o dia 27 de janeiro, ela expõe suas fotos no projeto “Über Migration”, que tem como tema a sutil analogia entre ervas daninhas e  imigração. Plantas invasivas, indesejáveis, ou “ilegais” num primeiro momento podem ser dotadas de uma incrível beleza e de atributos benéficos para vários fins. Tudo é uma questão de perspectiva. Em um momento em que questões de imigração, asilo, aceitação e adaptação causam longas discussões na Europa, o trabalho de Mariana provoca uma bela reflexão.

Camomila -  Foto: Mariana Polke
Camomila –
Foto: Mariana Polke

 

A mineira de Belo Horizonte é berlinense desde 2006. Entre as idas e vindas, suas raízes começaram a se fortificar em solo alemão em 2011, ao iniciar seu mestrado em Europäische Medienwissenschaft (Teorias Midiáticas Europeias) na Fachhochschule Potsdam.

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“Unkräuter sind Pflanzen der spontanen Begleitvegetation in Kulturpflanzenbeständen, Grünland oder Gartenanlagen, die dort nicht gezielt angebaut werden und aus dem Samenpotenzial des Bodens oder über zuflog zur Entwicklung kommen. Im allgemeinen Sprachgebrauch ist das Hauptkriterium, um eine Pflanze als Unkraut zu bezeichnen, dass sie unerwünscht ist. Je nach Sicht des Betroffenen kann ein bereits eingetretener, zu befürchtender wirtschaftlicher Schaden oder ein ästhetischer Grund der Auslöser für das Störungsempfinden sein (…).

A erva daninha (tradução livre)

“Ervas daninhas são plantas que crescem inesperadamente em plantações e jardins. (…)Na linguagem comum, o principal critério para categorizar uma planta como uma erva daninha é o fato dela ser indesejável. Dependendo do ponto de vista, o incomodo dessas plantas ocorre em função dos prejuízos na plantação ou por prejudicar a estética do local.

A interpretação do termo ‘erva daninha’ depende muito da percepção. Por exemplo, ao mesmo tempo em que algumas espécies de plantas são consideradas invasoras, elas são possuem vários usos: na agricultura, para fins medicinais, ou como bioindicadoras. Elas são consideradas ‘ervas daninhas’ a partir do momento em que são percebidas como ‘perturbadoras’.”

Quelle:  www.hortipendium.de/Unkraut

Apesar da descendência alemã, que lhe garantiu os privilégios de ter um passaporte europeu, Mariana muitas vezes se viu no vácuo em que muitas pessoas “em mobilidade” se encontram. O que significa pertencer ou se sentir parte de algum lugar? O que torna alguém de fora, diferente,  bem-vindo num determinado ambiente? Até que ponto uma formalidade como um simples papel, ou um passaporte vermelho, é capaz de influenciar a aceitação de alguém perante a  sociedade em que se chega?

Com esses questionamentos em mente, surgiu a oportunidade de participar do projeto fotográfico “Migranten in Europa” como parte do currículo do mestrado. Mariana juntou sua própria história com seu interesse por fotografia. Mas a analogia entre os imigrantes e as ervas daninhas – plantas geralmente encaradas como invasivas, indesejadas, deu-se por meio de outra história.

Desde que se estabeleceu na Alemanha, Mariana começou a cultivar plantas em casa. Trouxe do Brasil sementes de pimenta biquinho – planta que dificilmente se adapta nessa região, pois necessita de muito sol e calor. Entre as várias informações descobertas sobre o tema, uma lhe chamou a atenção: camomila é uma erva daninha. “Fiquei surpresa porque sempre pensei que erva daninha era algo ruim, sem uso. Encontrei  uma definição de erva daninha e me dei conta de que, ao trocar o termo por ‘imigrante’ o texto ia continuar fazendo sentido. Além disso, umas das principais propriedades das ervas daninhas a sua resistência e fácil adaptação a novos ambientes”, conta.

Assim, ela saiu por Berlim atrás dessas plantas, indo nas praças, no caminho para o supermercado. E começou a perceber que elas estavam em todo o lugar. Ao mesmo tempo, ela foi em busca de pessoas que possuíam um status semelhante: aqueles que estivessem em situação ilegal no país. “Estar ilegal também é uma questão de perspectiva, pois possuir ou não um papel muda tudo. Conversei com as pessoas, fui a um dos workshops do coletivo Migrantas. Eu ouvi muitas histórias, mas não sabia como expor tudo aquilo, como dar a devida importância que elas tinham no meu trabalho. Aí cheguei à conclusão que eu não deveria tentar mostrar tudo, deixando o trabalho mais subjetivo. Caberia a quem o visse ir atrás dessas histórias”, explica.

Fincar raízes, se adaptar a um novo ambiente, ser resistente às dificuldades são desafios de quem opta por começar a vida em outro lugar.
Fincar raízes, se adaptar a um novo ambiente, ser resistente às dificuldades são desafios de quem opta por começar a vida em outro lugar.

O resultado foi fotografar esses homens e mulheres, de costas, e usá-los como o fundo de um herbário, onde as plantas estariam projetadas. 13 pessoas com “Migrationshintergrund” fazem parte do trabalho. Elas se deixaram fotografar por acharem a ideia muito bonita. “Num primeiro momento, elas não entendiam bem o que eu ia fazer, mas ao verem a beleza das plantas, logo se motivaram para posar”, conta Mariana.

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As fotos, ao lado do trabalho de outros 17 colegas, estão reunidas na exposição “Über Migration”, no campus da Fachhochschule de Potsdam. A exposição é gratuita e está aberta ao público até o dia 12 de fevereiro.

Cartaz da exposição fotográfica, aberta ao público até o dia 12 de outubro na Fachhochschule Potsdam
Cartaz da exposição fotográfica, aberta ao público até o dia 12 de outubro na Fachhochschule Potsdam

Acompanhe as ideias e referências da  Mari Polke aqui.

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