Praia do Futuro - Divulgação

Diário da Berlinale – Dia 6

A vez do Brasil

Depois de um final de semana  um tanto hollywoodiano pra uma Berlinale, o clima parece ter voltado – finalmente – ao normal. E hoje chegou a vez do festival estender o tapete para o longa Praia do Futuro, de Karim Ainouz, participante da competição principal. No elenco, o grande Wagner Moura – já veterano na Berlinale em função de Tropa de Elite 1 e 2  – , o ator alemão Clemens Schick e Jesuíta Barbosa.

Jesuíta Barbosa, Wagner Moura, o diretor Karim Ainouz e o ator alemão Clemens Schick.
Jesuíta Barbosa, Wagner Moura, o diretor Karim Ainouz e o ator alemão Clemens Schick.

O filme conta a história de Donato (Moura), que trabalha como salva-vidas na praia do Futuro,  em Fortaleza. Mesmo sendo praticamente um “aquaman”, como o personagem se intitula para o irmão mais novo Ayrton (Savio Igor Ramos e Barbosa), Donato não consegue salvar a vida de um banhista. No incidente, apenas Konrad (Schick), um motociclista alemão, sobrevive. Nas buscas pelo corpo, os dois acabam se envolvendo e Donato decide ir pra Berlim começar de novo. Ele deixa pra trás sua família e Ayrton sem dar satisfação.

Depois do desfecho da novela “Amor à Vida”, perguntou-se quais são as expectativas da equipe em relação ao relacionamento de Donato e Konrad. Moura disse que não se deve criar uma grande questão em cima disso, pois o fato deles serem homossexuais não influencia a história do filme. E disse estar feliz pelo filme estar participando da competição principal e ter um grande alcance de público, afinal o amor entre dois homens é uma coisa natural.

A história entre Donato e Konrad – com cenas de amor explícito que prometem dar o que falar quando estrear no Brasil – divide espaço com a questão existencial de imigrar: que une o alívio, os desafios e as frustrações de assumir o recomeço em um lugar estranho. E para que toda aventura se inicie, é preciso um pouco de coragem. E a coragem só tem lugar quando se vence certos medos. Para Ainouz, isso tem a ver com os desafios dos super-heróis. “O filme é sobre um super-herói que se quebra. Este momento da história do cinema mostra muito  essa temática, os quadrinhos estão muito presentes. No filme há uma combinação de códigos de  diferentes gêneros cinematográficos que resultam numa caligrafia própria”, disse.

E seja como Capitão Nascimento ou como o “aquaman” Donato, Moura se confirma um ator versátil e excelente.

Para  fazer o filme, ele assumiu o desafio  de morar em Berlim por dois meses. Com sua família ao lado, ele pode viver a cidade pela qual ele já tinha uma afeição: “Berlim é uma das minhas cidades preferidas e a Berlinale é o festival de cinema que eu mais gosto. Caminhar em Kreuzberg com o Karim, estar aqui com a minha família, sair para comprar pão todos os dias foi fundamental para eu poder sentir a cidade.” Já para Ainouz, gravar entre Fortaleza e Berlim foi como estar em casa: “sou incondicionalmente apaixonado pelas belezas e defeitos das duas cidades. Fazer o filme foi muito prazeroso pois eu estava em lugares onde já estive, já vivi.”

Wagner Moura e Karim Ainouz na coletiva.
Wagner Moura e Karim Ainouz na coletiva.

Apesar das particularidades do enredo, a abordagem sobre recomeçar em outro lugar é capaz de tocar todos aqueles que optaram por um novo caminho. A insegurança sobre o futuro, as surpresas e belezas do novo lugar, os desafios de adaptação, a tempestade de sentimentos e os pensamentos sobre o que se deixou para trás. “Eu faço cinema porque gosto de gente. O que tem de mais sensual num ser humano é a contradição”, disse.

E para fechar a trama, Ainouz presenteia os espectadores com Heroes, de David Bowie, pois a canção foi um motivo para ele começar o filme. “Há músicas que me perseguem durante minha vida inteira. Posso dizer que tudo começou por causa dessa música, por isso eu sempre quis que ela estivesse no filme, pois ela dá o tom que ele tem: é um rock com uma certa melancolia.”

Estamos na torcida. No sábado, a equipe do filme retorna ao Berlinale Palast para a premiação do Urso de Ouro.