Arquivo da tag: Arte

Mini Enciclopédia de Street Art em Berlim

Além das várias galerias e museus, Berlim é famosa pela sua arte  de rua (street art). Quem tem um olhar mais atento, pode descobrir  obras pelos prédios e muros da cidade de artistas do mundo todo.  Política, deboche, critica social, humor ou simplesmente arte pela arte são alguns dos diversos motivos por trás dos traços, estêncil, paineis, colagens e sprays que fazem parte da identidade da cidade.

Grafite: origem italiana “graffito”, que quer dizer escrita feita a carvão. No final dos anos 1960, com as revoluções juvenis e movimentos de contracultura, o grafite se espalhou pelo mundo como forma de arte e protesto em lugares públicos. O grafite também é uma das vertentes do movimento hip hop, ao lado da música (DJ), das letras (rap) e da dança (break dance).

Mesmo sendo uma característica da cidade, as obras de street art são temporárias. Um exemplo disso foi a polêmica com o painel de Blu, um dos mais famosos de Berlim, que foi coberto por tinta preta após a expulsão de moradores de rua do terreno ao lado do painel e do anúncio da construção de um complexo de residências e escritórios de luxo.  Outro exemplo foi o fechamento do Tacheles em 2010, (onde, inclusive, encontra-se um trabalho de Banksy) que também foi vendido para uma incorporadora. Obras de street art surgem e somem da noite para o dia, por isso registramos aqui alguns trabalhos descobertos nas andanças pelas ruas de Berlim. Quem quer ver esses trabalhos ao vivo vai curtir nosso tour alternativo. Mande um e-mail para nós e marque seu horário!

Little Lucy – de El Bocho

Uma dos personagens mais populares da arte urbana de Berlim, Lucy aparece em diferentes situações, sempre tramando algo para o seu gato. As histórias da menina malvada são vistas em várias partes da cidade. El Bocho também assina a série Citizens.

Onde está meu gatinho?
Presente para o gatinho!
Poster da Little Lucy
Poster da Little Lucy
A Lucy aparece em várias situações aprontando para o seu gato.
Lucy em várias situações azucrinando seu gato.
Personagens da cidade por El Bocho
Personagens da cidade por El Bocho
Série Citizens de El Bocho
Série Citizens de El Bocho

 

Retrato de Anne Frank – de Jimmy C

Em 2012, o australiano Jimmy C pintou um retrato de Anne Frank como parte do projeto da Street Art BLN e da Street Art London em cooperação com o Anne Frank Museum. Um dos objetivos, além de atrair a atenção do público para o museu, era mudar a opinião de quem enxerga a arte de rua como vandalismo ou algo destrutivo. Fonte: Street Art BLN

Anne Frank, do australiano Jimmy C, feito em 2012 em cooperação com o Anne Frank Museum.
Anne Frank, do australiano Jimmy C, feito em 2012 em cooperação com o Anne Frank Museum.

 

Nenhuma criança nasce criminosa – de Emmanuel Alaniz

O argentino Alaniz é conhecido pelas suas críticas sociais por meio dos seus desenhos. Respeitado na cena de Berlim, Alaniz possui vários painéis com temáticas diferentes em muros e construções abandonadas.

No child is born a criminal - crítica de Emmanuel Alaniz
No child is born a criminal – crítica de Emmanuel Alaniz
O painel das crianças dormindo rendem diferentes interpretações sobre a sociedade, a justiça e a inocência
O painel das crianças dormindo rendem diferentes interpretações sobre a sociedade, a justiça e a inocência
Alaniz é argentino. Uma das interpretações deste painel é a representação das Mães da Praça de Maio, que protestaram durante a ditadura pelo desaparecimento de seus filhos
Alaniz é argentino. Uma das interpretações deste painel é a representação das Mães da Praça de Maio, que protestaram durante a ditadura em função do desaparecimento de seus filhos

 

Street art do Brasil – Os Gêmeos e Celopax

Os artistas de São Paulo também têm seu spot na rota da arte urbana de Berlim.

Painel d'Os Gêmeos representando o Brasil na diversidade de nacionalidades da arte urbana berlinense
Painel d’Os Gêmeos representando o Brasil na diversidade de nacionalidades da arte urbana berlinense

Já Marcelo Pax é de Porto Alegre.

Marcelo Pax, de Porto Alegre, tem seu espaço nos muros de Berlim
Marcelo Pax, de Porto Alegre, tem seu espaço nos muros de Berlim

 

Taosuz – Photoautomat

Em Berlim há diversas máquinas automáticas em que por 2 Euros tira-se quatro fotos preto e branco em sequencia. O projeto de Taosuz é unir ícones contrários nessas fotos e questionar alguns paradoxos da sociedade moderna.

Taosuz - Photoautomat
Adorar o líder errado pode danificar seriamente a sua alma
Taosuz - Photoautomat
Aparências podem ser enganosas
Taosuz
Consumismo causa trabalho infantil
Taosuz - Photoautomat
A ganância por petróleo causa guerra
"A rebeldia pode te matar" e "A dependência de dívidas é altamente viciante. Não comece"
“A rebeldia pode te matar” e “A dependência de dívidas é altamente viciante, não comece”

Street art em Berlim: E se você chegou até aqui…

…é porque você realmente curte Street Art. Se você vem para Berlim e quer conhecer a cultura alternativa da cidade, faça um tour com a gente. Basta mandar um email e agendar um horário: contato@deberlim.com

Exposição: As evidências de Ai Weiwei

Até o dia 7 de julho ocorre a exposição do artista plástico e designer chinês Ai Weiwei no Martin-Groupius-Bau, em Berlim. Ai Weiwei é conhecido e respeitado internacionalmente em função do seu ativismo político contra o regime autoritário e censor da China – seja por meio de suas obras como pelas sua presença na internet.

Reprodução da cela onde Ai Weiwei ficou preso por 81 dias em 2011.
Reprodução da cela onde Ai Weiwei ficou preso por 81 dias em 2011.

 

20140531_175817

 

Após ser preso em 2011, acusado de pornografia, sonegação fiscal e promoção da “desordem” no país, Ai Weiwei não recebeu seu passaporte de volta e, até hoje, não pode deixar o país. Apesar de ser constantemente boicotado na China pelo governo por meio de multas e novas acusações – as atividades de Ai no exterior são intensas. Na Alemanha, ele é uma sensação. Além da exposição no Martin-Gropius Bau, alguns cinemas alternativos exibem o documentário Ai Weiwei: The Fake Case, que mostra como o artista lida com a falta de coerência da justiça chinesa, com a sensação de ser vigiado o tempo todo e com seus traumas da prisão. Em paralelo, a vida de Ai Weiwei continua por meio dos seus novos projetos artísticos e das suas fortes relações com jornalistas e curadores do exterior – que o apoiam e o admiram de uma forma que chega a ser constrangedora. Recomendo o documentário para enriquecer a visita na exposição.

Lembrança de Shangai, o que sobrou do estúdio de Ai Weiwei demolido pelo governo pouco antes da inauguração, em 2011
Lembrança de Shangai, o que sobrou do estúdio de Ai Weiwei demolido pelo governo pouco antes da inauguração, em 2011

Ai Weiwei mistura fotografia, documentários, instalações e esculturas que possuem elementos da Dinastia Han, até as tintas metálicas  usadas hoje em dia por montadoras alemãs. Entre esses dois abismos há aço retorcido dos escombros do terremoto que devastou a região de Sichuan, mármore, pedra jade, bronze, madeira, computadores, câmeras… todas as evidências que o artista considera importante para chamar a atenção das pessoas e mostrar que a China não é apenas um dos motores da economia global, mas permanece um regime totalitário e atrasado, pois o respeito aos direitos humanos e à liberdade de expressão ainda não é prioridade do governo para com seus cidadãos. Assim, Ai Weiwei continua fazendo seu trabalho quase que remoto: preso no seu país, ele trabalha para o Exterior para que o resultado venha a dar efeito por lá.

Crítica e ironia. Não importa o lugar, "dane-se" o governo.
Crítica e ironia. Não importa o país ou o regime, “dane-se” o governo.

O quê: Exposição Ai Weiwei Evidence
Onde: Martin-Gropius Bau  Berlin Niederkirchnerstraße 7
10963 Berlin
Quando: Todos os dias, até o dia 7 de julho, 10h-20h
$: 11 Euros

 

Mariana Polke: Das Unkraut – a imigração em um herbário

A Mariana Polke, 29 anos, é de Berlim. Desde o dia 27 de janeiro, ela expõe suas fotos no projeto “Über Migration”, que tem como tema a sutil analogia entre ervas daninhas e  imigração. Plantas invasivas, indesejáveis, ou “ilegais” num primeiro momento podem ser dotadas de uma incrível beleza e de atributos benéficos para vários fins. Tudo é uma questão de perspectiva. Em um momento em que questões de imigração, asilo, aceitação e adaptação causam longas discussões na Europa, o trabalho de Mariana provoca uma bela reflexão.

Camomila -  Foto: Mariana Polke
Camomila –
Foto: Mariana Polke

 

A mineira de Belo Horizonte é berlinense desde 2006. Entre as idas e vindas, suas raízes começaram a se fortificar em solo alemão em 2011, ao iniciar seu mestrado em Europäische Medienwissenschaft (Teorias Midiáticas Europeias) na Fachhochschule Potsdam.

das Ụn·kraut <-s, Unkräuter>

“Unkräuter sind Pflanzen der spontanen Begleitvegetation in Kulturpflanzenbeständen, Grünland oder Gartenanlagen, die dort nicht gezielt angebaut werden und aus dem Samenpotenzial des Bodens oder über zuflog zur Entwicklung kommen. Im allgemeinen Sprachgebrauch ist das Hauptkriterium, um eine Pflanze als Unkraut zu bezeichnen, dass sie unerwünscht ist. Je nach Sicht des Betroffenen kann ein bereits eingetretener, zu befürchtender wirtschaftlicher Schaden oder ein ästhetischer Grund der Auslöser für das Störungsempfinden sein (…).

A erva daninha (tradução livre)

“Ervas daninhas são plantas que crescem inesperadamente em plantações e jardins. (…)Na linguagem comum, o principal critério para categorizar uma planta como uma erva daninha é o fato dela ser indesejável. Dependendo do ponto de vista, o incomodo dessas plantas ocorre em função dos prejuízos na plantação ou por prejudicar a estética do local.

A interpretação do termo ‘erva daninha’ depende muito da percepção. Por exemplo, ao mesmo tempo em que algumas espécies de plantas são consideradas invasoras, elas são possuem vários usos: na agricultura, para fins medicinais, ou como bioindicadoras. Elas são consideradas ‘ervas daninhas’ a partir do momento em que são percebidas como ‘perturbadoras’.”

Quelle:  www.hortipendium.de/Unkraut

Apesar da descendência alemã, que lhe garantiu os privilégios de ter um passaporte europeu, Mariana muitas vezes se viu no vácuo em que muitas pessoas “em mobilidade” se encontram. O que significa pertencer ou se sentir parte de algum lugar? O que torna alguém de fora, diferente,  bem-vindo num determinado ambiente? Até que ponto uma formalidade como um simples papel, ou um passaporte vermelho, é capaz de influenciar a aceitação de alguém perante a  sociedade em que se chega?

Com esses questionamentos em mente, surgiu a oportunidade de participar do projeto fotográfico “Migranten in Europa” como parte do currículo do mestrado. Mariana juntou sua própria história com seu interesse por fotografia. Mas a analogia entre os imigrantes e as ervas daninhas – plantas geralmente encaradas como invasivas, indesejadas, deu-se por meio de outra história.

Desde que se estabeleceu na Alemanha, Mariana começou a cultivar plantas em casa. Trouxe do Brasil sementes de pimenta biquinho – planta que dificilmente se adapta nessa região, pois necessita de muito sol e calor. Entre as várias informações descobertas sobre o tema, uma lhe chamou a atenção: camomila é uma erva daninha. “Fiquei surpresa porque sempre pensei que erva daninha era algo ruim, sem uso. Encontrei  uma definição de erva daninha e me dei conta de que, ao trocar o termo por ‘imigrante’ o texto ia continuar fazendo sentido. Além disso, umas das principais propriedades das ervas daninhas a sua resistência e fácil adaptação a novos ambientes”, conta.

Assim, ela saiu por Berlim atrás dessas plantas, indo nas praças, no caminho para o supermercado. E começou a perceber que elas estavam em todo o lugar. Ao mesmo tempo, ela foi em busca de pessoas que possuíam um status semelhante: aqueles que estivessem em situação ilegal no país. “Estar ilegal também é uma questão de perspectiva, pois possuir ou não um papel muda tudo. Conversei com as pessoas, fui a um dos workshops do coletivo Migrantas. Eu ouvi muitas histórias, mas não sabia como expor tudo aquilo, como dar a devida importância que elas tinham no meu trabalho. Aí cheguei à conclusão que eu não deveria tentar mostrar tudo, deixando o trabalho mais subjetivo. Caberia a quem o visse ir atrás dessas histórias”, explica.

Fincar raízes, se adaptar a um novo ambiente, ser resistente às dificuldades são desafios de quem opta por começar a vida em outro lugar.
Fincar raízes, se adaptar a um novo ambiente, ser resistente às dificuldades são desafios de quem opta por começar a vida em outro lugar.

O resultado foi fotografar esses homens e mulheres, de costas, e usá-los como o fundo de um herbário, onde as plantas estariam projetadas. 13 pessoas com “Migrationshintergrund” fazem parte do trabalho. Elas se deixaram fotografar por acharem a ideia muito bonita. “Num primeiro momento, elas não entendiam bem o que eu ia fazer, mas ao verem a beleza das plantas, logo se motivaram para posar”, conta Mariana.

IMG_0693

 

As fotos, ao lado do trabalho de outros 17 colegas, estão reunidas na exposição “Über Migration”, no campus da Fachhochschule de Potsdam. A exposição é gratuita e está aberta ao público até o dia 12 de fevereiro.

Cartaz da exposição fotográfica, aberta ao público até o dia 12 de outubro na Fachhochschule Potsdam
Cartaz da exposição fotográfica, aberta ao público até o dia 12 de outubro na Fachhochschule Potsdam

Acompanhe as ideias e referências da  Mari Polke aqui.

Você é deBerlim e tem um projeto incrível para compartilhar conosco? Entre em contato!