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Diário da Berlinale – Dia 2

Os meninos e a perda da inocência

Dizem que, a cada edição, a competição principal exibe filmes com uma temática em comum. Enquanto a do ano passado foi a das mulheres como protagonistas, esse ano são as crianças – até agora os meninos  – que roubaram a cena  e puseram o público para refletir sobre decepções e as amarguras de ter que crescer à força. Os filmes exibidos hoje,  Jack e ’71, são pesados e difíceis de digerir. Enquanto Jack é ambientado na Berlim atual, ’71 ocorre em Belfast do ano do título, em meio à guerra civil.

O segundo filme começa tirando o fôlego da plateia com uma cena tensa entre um grupo de meninos ingleses que mal têm barba na cara que são recrutados para a “guerra” contra  irlandeses católicos. Mas infelizmente o filme se perde depois disso. Já Jack é uma sequência de atos corajosos do pequeno protagonista, cujo nome dá título ao filme, contra o abandono da mãe e desinteresse dos demais adultos jovens berlinenses que o rodeiam. O filme se salva, com grande mérito, em função da atuação do pequeno Ivo Pietzcker: no meio de um monte de “adultos-jovens-geração-Y”, que teimam em negar a vida é mais do que as baladinhas eletrônicas de Berlim, Jack é a única pessoa séria do filme. A gente torce só pelo Jack e vê o filme até o final pra ver se ele terá um final feliz.

Grande garoto: Ivo Pietzcker, protagonista de Jack.
Grande garoto: Ivo Pietzcker, protagonista de Jack.

Na coletiva, quem vos escreve pegou o microfone e disse: “ Ivo, tu é demais.” Tive que parar de falar pois os demais jornalistas presentes concordaram com uma salva de palmas. E o guri, de 11 anos, disse que esse é o primeiro filme que ele faz e que a oportunidade surgiu por acaso. A mãe de um colega da escola era figurinista e, como a equipe não tinha encontrado ninguém, perguntou se ele não tinha interesse em fazer um teste. “Como era num sábado, eu nem quis ir, pois ia perder meu jogo de futebol. Mas deu pra marcar logo depois da partida. Fui direto, fiz o teste e fui muito bem”, disse, super seguro de si.

O diretor confirmou a história, dizendo que encontrar Ivo foi uma grande sorte num momento em que ele estava quase desistindo. “Fizemos vários testes com muitos garotos. Nenhum foi como queríamos. Lembro que esse sábado era a final da Champions League do Bayern contra o Dortmund. Já estava pensando em largar tudo e ver futebol, aí não é que o Ivo apareceu?”, contou Berger, bem feliz.

Além desses dois longas, Macondo, Kreuzweg, La tercera orilla (The Third Side of the River) e Boyhood devem apresentar outras histórias de meninos como protagonistas.

Cinéfilos madrugueiros

Não é só no Brasil que o pessoal acampa para conseguir um bom lugar na fila de um show. Para conseguir ingressos para o festival a coisa é semelhante. Ás 8h da manhã havia uma turminha com sacos de dormir tirando um cochilo na frente da bilheteria, sabe-se lá desde quando eles já estavam por ali. Sorte que é dentro do shopping.

Curtas

Hoje também foi dia de ver Two Men in Town, com Forest Whitaker e a super simpática Brenda Blethyn. Whitaker é um excelente ator. Mas sempre quando o vejo lembro dele como o ditador insano de o Último Rei da Escócia. O cara merece o respeito de todo mundo.

Brenda Blethyn, Forest Whitaker
Two men in town: a simpática Brenda Blethyn, Forest Whitaker e o diretor Rachid Bouchareb.

O júri assiste aos filmes na mesma sessão da imprensa. Na exibição de ´71, Christoph Waltz sentou ao lado de Michel Gondry. Eles ficaram de altas conversas até o filme começar. Os dois já trabalharam juntos em O Besouro Verde (The Green Hornet, filme mais nada a ver do querido Michel na minha opinião).

Gondry e Waltz
Gondry e Waltz: amigos no cine

A musa Tilda Swinton participa como atriz do filme Seolguk-Yeolcha (Snowpiercer), baseado no comic do mesmo nome. O filme será exibido só duas vezes na mostra Fórum. Mesmo chegando cedo pra conseguir ingressos para a sessão de hoje e de amanhã, já estava tudo esgotado. Buááá.

 

 

Na companhia de Michel Gondry

Um dos destaques do júri da Berlinale 2014 deste ano é o diretor e roteirista francês Michel Gondry. Na bagagem, ele leva Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind), de 2004. Um dos melhores filmes do muuuundo*, que aliás, completa 10 anos agora em 2014… Quantas lembranças…

Como não amar Joel e Clementine (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças)
Como não amar Joel e Clementine (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças)

Mas enfim, ano passado deu pra degustar um pouco da doçura de Gondry nos cinemas com  A Espuma do Dias, adaptação da obra literária de Boris Vian. Essa semana, a turma do kino teve uma boa surpresa ao ser informada da presença dele em Berlim. E, para preparar os ânimos, está rolando nas redes sociais um vídeo do The Creators Project, parceria da Vice com a Intel, em que ele comenta a criação de seu último projeto: “Is the Man Who Is Tall Happy?”.

Só esse making off já é um deleite pra quem gosta das pitadas de delicadeza e beleza de Gondry. Saca só:

Durante o festival, o júri assiste os filmes da competição principal nas sessões para a imprensa. Ou seja, vamos estar na mesma companhia, mesmo que a algumas fileiras de distância.

*na opinião de quem vos escreve, sem querer criar polêmica, por favor.